3 de abril de 2011

O que for para ser, será.


Numa noite qualquer em São Paulo, Carolina se arriscou a ir em uma grande balada da sua cidade. Por sua vez, qualquer um que a conhecesse, saberia que ela não é de sair, muito menos de ir em festas, afinal sua rotina baseia-se em faculdade oscilada com biblioteca nos dias úteis e livros nos finais de semana.
Com um sentimento mutuo de animação e medo, desceu as escadas, dando tchau aos seus pais e saiu ainda tropeçando por não estar acostumada com o salto alto. Para chegar até o lugar desejado, ela andou dois quarteirões de ônibus e os outros quatro quarteirões de táxi, sendo que no meio do caminho entre o ponto de ônibus e o ponto de táxi, ela já estava sentindo aquele sentimento de arrependimento e prevendo que voltaria para casa antes do previsto.
Quando chegou naquela festa, se impressionou muito, mas não ao ponto de ficar de “boca aberta” afinal, via aquilo diariamente em novelas e filmes.
Logo que entrou no estabelecimento, Carolina sentou-se ao bar e pediu um refrigerante. O garçom riu e ela sem jeito gaguejou e disse:
- Di...digo um drink igual ao do moço aqui do lado.
O garçom deu um sorriso de lado um tanto irônico e malicioso, andou em passos longos indo em direção ao interior do bar para fazer a bebida. Enquanto isso o moço ao seu lado logo gargalhou. Ela sem jeito, o olhou e disse simpaticamente como nunca há de ser:
- Oi.
- Oi.
- Tudo bem, moço?
- Tudo bem, moça?
(Silêncio)
- Eu te perguntei primeiro, moço.
- Não gosto de falar como estou, moça. Afinal, Sempre vou dizer que estou bem sendo que no fundo estou mal e eu odeio mentiras. Mesmo assim, se eu disser como eu realmente estou, vai prolongar uma conversa tão privada que prefiro apenas me corroer com o meu próprio silêncio.
- Eu te entendo, moço. Mas, só uma ultima pergunta, quem é você?
- Prazer, eu sou um cara cheio de defeitos.
Carolina,percebeu que aquele homem, não estava afim de conversar. E sem esperar a bebida, levantou-se e saiu andando em direção a saída, foi quando o moço chamou-a com um “psssst”. Ela olhou para trás e ele com as mãos a chamou sem mesmo disfarçar seu semblante de remorso. Ela foi em direção ao moço involuntariamente, quando ele lhe disse:
- Sua bebida chegou, não vai tomar?
- Não sei, esse lugar não é muito para mim.
- Você é para que lugar?
- Qualquer um, contanto que tenha poucas pessoas.
- Vamos para a rua. (Disse ele, deixando o dinheiro em cima do balcão, pagando tanto sua conta como o drink de Carolina).
Ela abaixou a cabeça e sem jeito, seguiu o moço até a rua. Ele logo acendeu seu cigarro, como qualquer outro fumante compulsivo paulistano. Ela tremendo de frio, cruzou os braços e bateu os dentes um nos outros, o moço vendo ela toda encolhida logo ofereceu seu casaco, como qualquer cliché de filme francês tão almejado por qualquer garota.
O silencio pairou sobre a rua, quando ele sem graça quebrou o gelo e puxou um típico assunto de elevador:
- O quê você gosta de ouvir, moça?
- Folk, sou apaixonada pelo Cash.
- Bom gosto.
- Mas, e você? Gosta de ouvir o que?
- Rock, o bom indie-rock de sempre, como The Killers.
- Bom gosto, também.
Cansados de andar, eles sentaram a beira da calçada a frente das escadas do metrô e conversaram sobre diversos assuntos, diversos clichês, deram grandes risadas, e olhares apaixonados, proporcionando um dos melhores e sinceros momentos de ambas as vidas.
Quando começou a clarear, Carolina olhou em seu relógio e viu que estava atrasada, logo começou a chorar. O moço preocupado lhe perguntou:
- O que está acontecendo?
- Tenho horário para estar em casa, minha vida não é igual uma canção do Cash. (Ela o respondeu, com a respiração ofegante e nervosa).
O moço sentindo o nervosismo de Carolina e mesmo sem saber seu nome, correu com ela até o ponto 24 horas de táxi mais perto e a acompanhou até sua casa.
Os dois se despediram e logo depois Carolina insistiu a lhe devolver seu casaco, mas o moço não aceitou, ela conformada o agradeceu.
Os dois que por alguns instantes já foram um, partirão.
Carolina pensou desde o elevador até sua cama, no porque daquele moço se preocupar tanto com os seus defeitos, e ele já acostumado com perdas sentiu um remorso grandioso, ao se lembrar que aquela moça que poderia mudar todos os seus defeitos, tinha horário para estar em casa.

Pauta para o Bloínquês, 63ª Edição Musical.

4 comentários:

  1. Adorei naty, você está indo muito bem! Essa nova fase do minutos de tédio para o café e inverno, mostrou toda essa mudança. Estou sem palavras!

    bjs, bia.

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  2. Personagem bem segura essa Carolina, dá pra sentir a personalidade dela. Gostei, parabéns.

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  3. Muito profundo ... Gostei muito.

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  4. Arrasou, diva! Um amor realmente consegue curar os piores defeitos existentes, já vivi uma coisa bem parecida.

    Um beijo :*

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